No último dia 27 de janeiro comemorou-se os 70 anos da libertação dos prisioneiros do campo de concentração de Auschwitz-Birkenau. A data é desde de 2005 o Dia Internacional da Lembrança do Holocausto, instituído por uma resolução da Assembléia Geral da ONU. Mortos, torturados, submetidos a condição sub-humanas, "experimentos" travestidos de um cientificismo mentiroso, seus prisioneiros foram prova de um dos capítulos mais selvagens da história humana. Não tenho intenção de mensurar seus efeitos ou atos, pois algo de tão triste lembrança não pode ser equiparado ou mensurado. Outros massacres e genocídios estão no mesmo capítulo negro da humanidade.
Campos de concentração nazista; Gulags soviéticos; extermínio no Camboja promovido pelo Khmer Vermelho; massacre em Ruanda perpetrado por extremistas Hutus contra Tutsis e Hutus moderados; massacre de milhões de Armênios em 1917 durante o Império Otomano; massacre de minorias na Iugoslávia e Chechênia. Iriam faltar linhas para descrever diversas formas de massacre de inocentes somente durante o século XX.
Mas o que poucos dão importância, seja o público em geral ou a imprensa, é que muitos dos massacres ou das vítimas não tem a devida atenção. Mesmo tendo sido as maiores vítimas do Holocausto, os judeus não foram as únicas vítimas. Os campos serviram para o extermínio de tudo o que o Estado nazista não considerava "digno" de seu pureza, como gays, comunistas, deficientes físicos e ciganos que também foram suas vítimas.
Além de uma condição de vítimas de segunda classe em alguns massacres, há um caso quase invisível. A guerra de Independência de Israel foi o condutor do massacre do povo palestino, que diferentemente dos casos acima que foram interrompidos, continua com seus efeitos até hoje. O Nakba (desastre) ocorreu com a destruição de vilas e cidades palestinas por tropas paramilitares, massacre de seus habitantes, expulsão de palestinos de cidades que fariam parte do futuro Estado de Israel, provocando uma migração forçada de centenas de milhares de palestinos para fora de suas terras.
Não pretendo discutir a questão semântica que tenta separar o que foi expulsão promovida por tropas judaicas e o que foi "efeito colateral" da guerra entre tropas árabes e judaicas. O que tento mostrar é o quão esquecido ou pouco relevante é o assunto para a grande mídia. Se em 1948, os expulsos chegaram a pouco mais de 700 mil, os mortos não podem ser contabilizados com precisão e seus efeitos diretos e indiretos são igualmente incomensuráveis. Expulsos de suas terras, vivendo em campos de refugiados, tratados como cidadãos sem terra e sem pátria, os palestinos são vítimas contínuas de um massacre. Sem terra ou acesso igualitário à terra em Israel, onde vivem como cidadãos de segunda classe; submetidos ao controle ilegal de seu território ocupado pelo exército de Israel ou em constante clima de violência na Faixa de Gaza, os palestinos são quase invisíveis, mas são igualmente vítimas.
Judeus no Holocausto ou palestinos no Nakba são igualmente vítimas e seu sofrimento não pode ser mensurado, mas pode ser reparado pela História, pelas autoridades internacionais e até por uma reparação em função do ocorrido. Se no caso judeu, indenizações (entre outros) são vistas como formas de reparação minimante digna, no caso palestino, ainda não se chegou a um consenso que determine a melhor forma de reparação, seja uma indenização, direito ao retorno às suas terras ou algo intermediário. Mas o que o que mais os palestinos necessitam é ter o direto de dizer com orgulho e direito que vivem e são filhos da Palestina.

