sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Jornais brasileiros e o caso "SodaStream-Scarlett Johansson"


É notório que a velocidade em que uma notícia é publicada no exterior difere do noticiário no Brasil, assim como a recíproca é verdadeira. Mudou muito nos últimos anos, principalmente em função da velocidade da internet. Mas temos que admitir que algumas notícias podem ter uma velocidade mais lenta de publicação em função do receio da falta de credibilidade das fontes (ou dados escassos), da menor importância da notícia ou da complexidade do tema.

Ainda que admitindo todas essas variáveis, a notícia sobre o acordo comercial da atriz Scarlett Johansson com a empresa israelense SodaStream demorou uma semana para ter ressonância na grande imprensa brasileira. Somente na quinta-feira e sexta-feira, as empresas do grupo Folha e Globo deram a devida importância ao imbróglio no qual a atriz se meteu. Dos telejornais, somente o "Jornal da Globo" de quinta-feira é que noticiou, talvez por ter como âncora William Waack, com mestrado em Relações Internacionais e por ter sido correspondente no Oriente Médio.

Nos jornais, revistas e internet, todos os grandes grupos de mídia no Brasil deram importância inicial somente ao acordo comercial e valores do comercial no intervalo do SuperBowl LVVIII. Nenhum canal de comunicação deu importância aos desdobramentos do acordo comercial de uma celebridade (ainda que eu discorde do termo) com uma empresa israelense que tem sua unidade fabril em assentamento ilegal em território palestino.

Somente nos dois últimos dias os canais de mídia deram a ressonância ao noticiário internacional sobre o caso. Tanto o boicote sobre as empresas israelenses como a SodaStream, assim como as críticas recebidas  pela empresa e a atriz por Ongs humanitárias como a OXFAM só surgiram agora no noticiário.

O rompimento da relação que existia entre a OXFAM e a atriz, que era sua embaixadora, pode parecer de menor importância, assim como o envolvimento comercial de uma atriz famosa com uma empresa que sofre boicote.

Mas o que na verdade há é uma menor capacidade de crítica e de análise da mídia nacional frente ao noticiário internacional e seus desdobramentos. Quando a imprensa internacional tece comentários e análises rapidamente sobre notícias no Brasil, a imprensa nacional parece sentir-se traída. O que a imprensa nacional queria é que a imprensa internacional fosse tão reticente e lenta em suas análises quanto ela. Ainda bem que temos a internet para nos livrar dessa morosidade.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

O que vale mais? Um contrato publicitário ou uma causa humanitária?

http://electronicintifada.net/

Após ser criticada por ter assumido a função de embaixadora da marca de máquinas de produção de refrigerante caseiro SodaStream, que tem sua fábrica em assentamento ilegal na Cisjordânia ocupada por Israel desde 1967, a atriz Scarlett Johanson decidiu abandonar a função de embaixadora da ONG OXFAM, que busca combater a pobreza e a injustiça através de campanhas.

Para a atriz, talvez isso seja melhor ou mais cômodo do que se inteirar sobre os desdobramentos de seu envolvimento com uma empresa que se aproveita da miséria dos palestinos e da ocupação ilegal de território palestino pelo Estado de Israel.

Ou será que para ela um contrato publicitário é mais importante que uma causa humanitária? Ou uma causa humanitária só é importante enquanto não atinge nenhum interesse comercial de um ator? Ou o envolvimento com uma causa humanitária só é importante para imagem e não para a causa em si?

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

O verde apagar da História.


Biria Forest. Photo: Avi Hirshfield, KKL-JNF Jerusalem.

Quando vemos uma floresta pensamos nas vantagens de se manter um espaço assim. São locais apropriados para passeios, práticas de atividades esportivas, visitas guiadas, além de servirem para a preservação da flora e fauna original da região e dos mananciais, apesar de algumas nem mais terem  unicamente espécies da fauna local, como acontece com a Floresta da Tijuca na cidade do Rio de Janeiro. 

Em Israel há muitos parques nacionais, todos criados após a independência e mantidos por uma entidade -JNF (Jewish National Fund), que administra os parques e o plantio de regiões do país com espécies que não são originárias da região. Pode parecer de menor impacto este plantio, mas a implantação de parques e o plantio de árvores segue um critério e um objetivo claro de ocupação do espaço das antigas vilas e cidades palestinas desocupadas durante a guerra árabe-israelense de 1948-49.

Criada em 1901, a JNF, com objetivo de aquisição de terras durante o final do Império Otomano, foi mais do que uma instituição de caridade e se tornou a "guardiã da terra pra o povo judeu" e a dministradora das terras não-urbanas em Israel. Serviu par a criação de um território estritamente judaico através da plantação de coníferas e outras espécies não originárias da região. Ajudou a criar a idéia de que os judeus levaram recuperaram a "terra seca" da Palestina, criando vastos bosques e parques. Com o plantio de mais de dois milhões e quatrocentas árvores, a JNF não tem somente o objetivo ecológico, mas de ajudar a apagar a presença árabe na Palestina.

O objetivo da JNF era criar um país verde, judeu e europeu, diferentes das características da paisagem local. Para isso foram usadas espécies originárias da Europa e América do Norte, reforçando a idéia de uma palestina árida e vazia antes da chegada dos colonos judeus.

Além de plantar árvores, criando um cinturão verde entorno das antigas vilas palestinas, a JNF proíbe a visita de palestinos aos locais das antigas vilas. Esta ocultação da presença palestina é mostrada no filme "Facing the forest" (2001), do diretor judeu-alemão Peter Lilienthal, baseado no livro do autor israelense Abraham B. Yeoshua, que fala do trabalho de um rapaz israelense, Noach, que exerce a função de guarda florestal num parque, e que passa a conviver com um senhor palestino, Abdul Karim, e sua filha, Nahida.

O ponto de virada da história se dá quando ocorre um incêndio do qual Karim é acusado pelas autoridades de ter provocado, enquanto Noach é demitido. Mas o incêndio revela a existência de uma vila encoberta pelas árvores. Além da discussão acerca do projeto judeu-sionista de expulsão da população palestina das vilas, o diretor discute o projeto de recriação de um ambiente totalmente novo por parte das autoridades israelenses, distanciando-a de uma Palestina com presença árabe.

A presença palestina pode ser contestada pela historiografia "oficial" israelense, ou tentarem apagar através do plantio de árvores e criação de parques, mas não deixa de suscitar trabalhos a seu respeito tanto por representantes da nova  historiografia israelense quanto da literatura e do cinema.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

A incapacidade de crítica da imprensa brasileira.

http://revistaquem.globo.com/
Apesar da atriz Scarlet Johansson estar no centro do furacão por ter se tornado embaixadora global da marca SodaStream, que sofre críticas pois sua unidade fabril está situada em um assentamento israelense ilegal na Cisjordânia, a imprensa brasileira parece desconhecer o assunto ou simplesmente não acompanha o noticiário internacional acerca das críticas sofridas pela atriz e seu contratante.

Será que os belos olhos da atriz são suficientes para a imprensa ignorar a discussão sobre a responsabilidade de seus atos? Será que a imprensa considera que um contrato publicitário é mais importante que a repercussão do caso? A revista "Quem" prefere comentar somente a aparição da atriz no comercial que será vinculado no intervalo do Super Bowl no próximo domingo. Mas outros veículos de imprensa preferem ignorar ou comentam superficialmente sobre o imbróglio atriz-anunciante. Ainda que jornais como "New York Times" estejam dando cobertura sobre a situação, os veículos brasileiros preferem ignorar.

Talvez a imprensa brasileira esteja inebriada pela beleza da atriz ou demonstrando a total falta de capacidade de crítica e pesquisa sobre assuntos que fujam do quintal do noticiário Rio-São Paulo-Brasília. Ou esteja faltando coragem para tecer críticas mais duras que somente ao seu cabelo ou a alguma atuação nos filmes de Woody Allen.

Até onde pode ir a desinformação?


Nas última semanas foi noticiada a parceria da empresa israelense SodaStream com a atriz Scarlett Johansson, tornado-a embaixadora mundial da marca, além do anúncio de uma grande peça publicitária no maior evento dos esportes americanos, o Super Bowl. 

Se fosse mais uma simples empresa não haveria problema algum ela ter se tornado garota-propaganda, mas o grande problema está na localização da produção da empresa e a visão limitada da atriz a este respeito. Com sua unidade instalada num assentamento israelense ilegal na Cisjordânia ocupada por Israel desde 1967, a empresa ajuda a fomentar o colonialismo israelense e a não autonomia do povo palestino na sua busca por um país independente e livre de tropas israelenses.

Para a atriz não passa de mais uma forma de ficar mais rica, sem se preocupar com a origem do produto que anuncia. Ao ser alvo de críticas por estar associando sua imagem a uma empresa que ocupa território palestino de forma ilegal, a atriz simplesmente se defendeu elogiando a empresa, que ela diz estar criando "pontes" entre israelenses e palestinos, mas o que na verdade a SodaStream cria é a segregação e a exclusão, pois ajuda a negar acesso à  terra pelos palestinos, oferece sub-empregos a palestinos (empregos esses que nem os cidadãos israelenses querem) e assim consegue ter recursos para pagar uma notável "embaixadora" da marca no mundo. 

Após isso, a ONG OXFAM, que atua em mais de 100 países e trabalha para reduzir a pobreza e injustiça, e que Johansson tem representado desde 2007, criticou a atriz por representar uma empresa que contraria a política da ONG. Não satisfeita com a infeliz nota sobre "pontes", a atriz ainda tentou se defender alegando que "nunca quis ser o rosto de nenhum movimento social ou político", o que contraria sua participação como "embaixadora" da ONG.

Será que vale tudo para ter um gordo contrato publicitário com uma empresa? Nem falo na necessidade de maior consciência, mas algumas pessoas parecem não entender o peso de suas ações e, principalmente, de sua imagem. Será que vale a pena usar sua imagem sem pensar no reflexo de suas ações na vida das outras pessoas? Deve ser muito bom dormir somente tendo que se preocupar com a sua imagem no espelho.

domingo, 26 de janeiro de 2014

Por que "Notícias da Palestina"?

Na imprensa brasileira, o interesse pela notícia varia muito em função de alguns aspectos, fazendo com que temas percam espaço na cobertura muito rapidamente pela repetição do assunto, por terem se tornado muito complexo para páginas principais ou simplesmente por se tornarem secundários em algumas coberturas, sejam nacionais ou internacionais. Um dos assuntos que costumam ganhar destaque, mas depois some novamente, é o noticiário sobre o Oriente Médio. Normalmente ganham destaque quando há algum atentado terrorista, alguma descoberta arqueológica ou simplesmente por tratar de algum desdobramento político. Dificilmente as notícias passam disso na imprensa brasileira.

Como Historiador, sempre me senti motivado a pesquisar o Oriente Médio, especialmente a Questão Palestina. Como sempre tive dificuldade para conseguir informações, livros, dados e notícias mais específicas sobre a Palestina decidi criar esta página para divulgar e comentar notícias, blogs, trabalhos acadêmicos e livros sobre a Palestina.

Espero poder expressar minha opinião da forma mais correta possível com imparcialidade, mas sem esquecer a crítica mais responsável possível. Se há algo que gostaria de poder sempre falar é sobre a Palestina e os Palestinos, que são tão pouco comentados, discriminados como os muçulmanos e até esquecidos, seja pela imprensa, historiadores ou por pesquisadores das mais diversas áreas.

Não pretendo somente falar dos Palestinos como a historiografia atual no Brasil expõe, vitimizando-os ou tratando-os somente como refugiados ou esquecidos pela História, mas quero mostrá-los como partes ativas de sua própria História e de sua condição política e econômica.

Antes de ser somente um canal de informação e discussão, pretendo ser lugar aglutinador sobre a História que não quer se apagar.