quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Fome e sede em Yarmouk


Moradores do campo de refugiados de Yarmouk recebendo auxílio alimentar.

Em tempos de falta de água e possibilidade de racionamento de água e luz nas duas principais regiões metropolitanas do Brasil, as condições não são diferentes do que ocorre num campo de refugiados palestinos na Síria, Yarmouk. No meio do conflito entre forças rebeldes e leais ao governo, o campo sofre com isolamento e dificuldade de abastecimento por agência de assistência da ONU para refugiados palestinos no Oriente Próximo (UNRWA).

Em pleno inverno, o abastecimento de combustível e comida são raros, enquanto o abastecimento de água é mais deficitário, como pode ser comprovado pela necessidade de alguns de seus habitantes em coletar água do próprio solo do campo mas que não apresentam condições apropriadas para o consumo.

O isolamento dificulta a entrega de cestas básicas aos seus habitantes, o que compromete as condições de sobrevivência. Em sua maioria, os habitantes vivem com somente uma refeição diária, chegando ao alarmante consumo de parcas 400 calorias. Isolados pela guerra, distanciados de sua terra natal, os refugiados palestinos só tentam sobreviver a mais uma provação na sua longa caminhada rumo ao sonho de uma Pátria própria.


 




sábado, 31 de janeiro de 2015

De Auschwitz ao Nakba





No último dia 27 de janeiro comemorou-se os 70 anos da libertação dos prisioneiros do campo de concentração de Auschwitz-Birkenau. A data é desde de 2005 o Dia Internacional da Lembrança do Holocausto, instituído por uma resolução da Assembléia Geral da ONU. Mortos, torturados, submetidos a condição sub-humanas, "experimentos" travestidos de um cientificismo mentiroso, seus prisioneiros foram prova de um dos capítulos mais selvagens da história humana. Não tenho intenção de mensurar seus efeitos ou atos, pois algo de tão triste lembrança não pode ser equiparado ou mensurado. Outros massacres e genocídios estão no mesmo capítulo negro da humanidade.

Campos de concentração nazista; Gulags soviéticos; extermínio no Camboja promovido pelo Khmer Vermelho; massacre em Ruanda perpetrado por extremistas Hutus contra Tutsis e Hutus moderados; massacre de milhões de Armênios em 1917 durante o Império Otomano; massacre de minorias na Iugoslávia e Chechênia. Iriam faltar linhas para descrever diversas formas de massacre de inocentes somente durante o século XX.

Mas o que poucos dão importância, seja o público em geral ou a imprensa, é que muitos dos massacres ou das vítimas não tem a devida atenção. Mesmo tendo sido as maiores vítimas do Holocausto, os judeus não foram as únicas vítimas. Os campos serviram para o extermínio de tudo o que o Estado nazista não considerava "digno" de seu pureza, como gays, comunistas, deficientes físicos e ciganos que também foram suas vítimas.

Além de uma condição de vítimas de segunda classe em alguns massacres, há um caso quase invisível. A guerra de Independência de Israel foi o condutor do massacre do povo palestino, que diferentemente dos casos acima que foram interrompidos, continua com seus efeitos até hoje. O Nakba (desastre) ocorreu com a destruição de vilas e cidades palestinas por tropas paramilitares, massacre de seus habitantes, expulsão de palestinos de cidades que fariam parte do futuro Estado de Israel, provocando uma migração forçada de centenas de milhares de palestinos para fora de suas terras.

Não pretendo discutir a questão semântica que tenta separar o que foi expulsão promovida por tropas judaicas e o que foi "efeito colateral" da guerra entre tropas árabes e judaicas. O que tento mostrar é o quão esquecido ou pouco relevante é o assunto para a grande mídia. Se em 1948, os expulsos chegaram a pouco mais de 700 mil, os mortos não podem ser contabilizados com precisão e seus efeitos diretos e indiretos são igualmente incomensuráveis. Expulsos de suas terras, vivendo em campos de refugiados, tratados como cidadãos sem terra e sem pátria, os palestinos são vítimas contínuas de um massacre. Sem terra ou acesso igualitário à terra em Israel, onde vivem como cidadãos de segunda classe; submetidos ao controle ilegal de seu território ocupado pelo exército de Israel ou em constante clima de violência na Faixa de Gaza, os palestinos são quase invisíveis, mas são igualmente vítimas.

Judeus no Holocausto ou palestinos no Nakba são igualmente vítimas e seu sofrimento não pode ser mensurado, mas pode ser reparado pela História, pelas autoridades internacionais e até por uma reparação em função do ocorrido. Se no caso judeu, indenizações (entre outros) são vistas como formas de reparação minimante digna, no caso palestino, ainda não se chegou a  um consenso que determine a melhor forma de reparação, seja uma indenização, direito ao retorno às suas terras ou algo intermediário. Mas o que o que mais os palestinos necessitam é ter o direto de dizer com orgulho e direito que vivem e são filhos da Palestina.

sábado, 17 de janeiro de 2015

Incoerência dos colonizadores

Em função do ataque sofrido pelos jornalistas do periódico "Charlie Hebdo", muito se fala contra a atitude dos

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Por quem eu choro?




Em Paris, a população local protestou no último domingo contra as mortes dos jornalistas do jornal francês "Charlie Hebdo" por radicais em função de charges publicadas que ridicularizavam a religião muçulmana e mais especialmente a figurão de Maomé. Em várias cidades do mundo, outras manifestações ocorreram tal como no Rio de Janeiro. Jornalistas, cidadãos franceses, correspondentes estrangeiros e a população em geral manifestou-se em apoio aos mortos e em repúdio à violência perpetrada.
Mas fica uma dúvida no ar. Quais mortes podem causar indignação e mover multidões contra seus algozes? Quais vítimas merecem homenagens? E quais podem ser esquecidas pela mídia? Enquanto o mundo se comove pelos 12 jornalistas, nada ou quase nada aparece sobre as mortes na Nigéria (mais de 2.000), pouco se fala dos mortos pelo Estado Islâmico e aguerra na Síria, nada mais se fala sobre as milhares de mortes causadas pela ofensiva israelense na Faixa de Gaza (chego a duvidar que existiu, em função do esquecimento jornalístico e político). Será que a morte de cidadãos de países distantes do umbigo europeu não comove a imprensa mundial e opinião pública ao ponto de motivar manifestações tão volumosas?
É difícil não considerar o egocentrismo europeu, e um desprezo pelos estrangeiros, especialmente quando comungam uma religião pouco compreendida e muito carregada de preconceitos. Mas ainda assim o tratamento diferenciado da imprensa e opinião pública é estarrecedor. Sem contar o fato de sempre haver um excessivo uso de termos como "fundamentalistas islâmicos", "eterna região de conflitos"quando tratam genericamente da região do Oriente Médio (como se a maioria soubesse  diferença entre Afeganistão, Líbia, Síria e Egito, ou como se tudo fosse Oriente Médio). Prefiro evitar termos que não correspondem à realidade ou que ajudem a alimentar o preconceito. Mas só gostaria de poder saber por quem eu choro a morte ou por quem eu levanto um cartaz de indignação. Enquanto isso, prefiro escrever sobre aqueles que não tem voz ou vez.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Israel e o ódio sem fim contra os palestinos

Jovens de extrema-direita protestando em Jerusalém (Tali Mayer / ActiveStills)

Os defensores do Estado de Israel e de sua política afirmam que esta é a única democracia do Oriente Médio, em oposição às ditas ditaduras islâmicas. Fundada a partir de uma singularidade religiosa e étnica, possui em seu território vários grupos diferentes do grupo majoritário judeu. E essa diferença implica num tratamento diferenciado por parte do Estado a esses "cidadãos de segunda classe". Israelenses árabes, drusos e beduínos tem tratamento diferenciado, sem acesso aos mesmos direitos que so de origem judaica. Até dentro da maioria judaica, há um tratamento diferenciado para os judeus de origem árabe (sefarditas), muitos deles oriundos de países do próprio Oriente Médio, como Iraque.

Se há um tratamento diferenciado em tempos menos atribulados (não falo em "tempos de paz", pois seria incoerente afirmar que isso ocorre em uma sociedade belicosa como a israelense), o que esperar nessa fase de ataque a Faixa de Gaza? Mesmo com forte oposição aos ataques, oriundos de parte da sociedade israelense com apoio da opinião publica internacional, há um forte apoio de parte de sociedade israelense aos ataques do exército de Israel. Esse apoio pode ser percebido nas redes sociais e em manifestações públicas de apoio.

Mas além desse aprovação, há uma manifestação de sentimento inerente à parte da sociedade a partir de uma construção em relação aos árabes e especialmente aos palestinos. Vistos como atrasados, sujos, violentos, corruptos entre outras características negativas, sua exclusão, morte ou expulsão é vista como natural. A existência de tais considerações é fruto de uma construção histórica e que encontra ressonância em camadas da sociedade israelense. Manifestações públicas de ódio, perseguições de palestinos e assassinatos são alguns dos eventos frutos dessa ódio.

Cânticos nazistas zombando da morte de crianças palestinas ("Amanhã não haverá nenhuma escola em Gaza, elas não tem mais nenhuma criança") são entoados como vindos de uma torcida organizada. Mas o que comemoram é somente a morte de crianças. Perseguições públicas de palestinos por multidões de jovens judeus pelas ruas de cidades como Jerusalém, onde Muhammad Abu Khudair, jovem palestino de 16 anos, foi morto após ser queimado vivo. A ação foi estimulada por políticos isrraelenses. As vítimas mais recentes foram Amir Shwiki e Samer Mahfouz, jovens de 20 anos e moradores do bairro de Beit Hannina em Jerusalém Oriental ocupada.

Além dos ataques, o fato da polícia de Israel ignorar crimes raciais torna-os mais perigosos e estimulantes para grupos de extrema direita. Já há campanhas para que se evitem contato de judeus com árabes promovidas em cidades como Jaffa. Grupos como Hemla recebem ajuda estatal para "resgatar" mulheres judias de relacionamentos com árabes. Os ataques suregem até de deputados como o israelense Ayelet Shaked, uma estrela em asceção no partido de extrema direita Jewish Home, que estimula o abate de mães palestinas para impedí-las de darem à luz a "cobrinhas".O ódio é explícito em discurso de políticos e de rabinos como  do ex-rabino chefe do exército de Israel, Avichai Rontzki, que em seus discursos estimulou os soldados antes do massacre do bairro de Shujaiya, na cidade de Gaza, quando os exalta como o "exército de Deus".

Fruto de um preconceito construído para manter judeus e palestinos distantes, manifestado por multidões raivosas pelas ruas de Israel, proferida através de discursos inflamados de políticos ou de rabinos, estimulada pela internet ou por cartazes coladas em paredes de lojas de árabes, ou simplesmente expressa pela indiferença de quem simplesmente observa as bombas sendo jogadas em Gaza, observando tudo do alto de uma colina, o ódio é irmão da indiferença e primo da incapacidade de reflexão de que todos estes sentimentos só servem para construir muros de medo e rios de sangue. Mas no final, todos viram vítimas.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Valor das vidas palestinas




Desde o início da ação israelense em Gaza, incluindo a sua incursão terrestre, o número de mortos do lado palestino passa de 500 (sendo que destes menos de 20% são integrantes dos Hamas). Não há discriminação quanto aos alvos. Mulheres, crianças, idosos e homens são atingidos em qualquer situação e de qualquer forma. De acordo com a UNICEF, o número de crianças mortas passa de 120 até o dia 21 de julho, sendo que uma em cada três crianças mortas tem menos de 12 anos.

Uma família inteira em casa, quatro meninos numa praia jogando futebol, uma ala de hospital em Gaza, homens na rua procurando sua família. Todos são alvos como se fossem alvos móveis ou fixos, dependendo somente da vontade de quem atira ou lança seu míssil. Não importa a situação, mas somente os números a serem atingidos. Os palestinos são tratados como números de uma tabela mortal, na qual são somados suas lágrimas e seu sangue, escondidos da grande imprensa mundial.

Além dos mortos, há um número muito maior de feridos passa de 3.700, entre essas mais de 900 crianças, sem contar os que necessitarão de tratamento psicológico. Segundo o porta-voz da ONU em Genebra, Jens Laerke, não há nenhum lugar seguro para civis em Gaza. Há mais de 100 mil pessoas refugiadas em 69 escolas gerenciadas pela Agência das Nações Unidas aos Palestinos (UNRWA).

O tratamento que Israel dá aos palestinos pode ser percebido em declarações das autoridades, assim como membros da sociedade israelense. Dov Lior, um rabino israelense racista do assentamento de Kiryat Arba, na Cisjordânia, recentemente postou uma decisão permitindo matar civis inocentes, após ser questionado sobre a "guerra" em Gaza: "A Torá de Israel nos guia em todas as esferas da vida, públicas e privadas, sobre como se comportar .(...) Durante a guerra dos povos atacados estão autorizados a punir a população inimiga com qualquer punição digna, como negar suprimentos ou eletricidade e também para bombardear toda a área (...)" Além de defender que é aceitável  "(...) tomar medidas de esmagamento de dissuasão para exterminar o inimigo. No caso de Gaza, ao ministro da Defesa, será permitido para instruir até mesmo a destruição de Gaza".

A justificativa israelense para tantos mortos civis é de que os palestinos são usados como escudo pelo Hamas, mas entre os alvos dos ataques israelenses estão casas com famílias inteiras, hospitais, assim como ocorreu com a Mesquita al-Farouq, que foi deixada de pé apenas um minarete, uma casa para deficientes em em Beit Lahiya, onde morreram dois moradores com deficiência e ferindo outros quatro. Jamilla Alaiwa, assistente social que fundou a casa em 1990, afirma que não havia ligação com paramilitares: "Não estamos envolvidos na política e não há nada lá que justifique esta ação por parte dos israelenses. Todos nós sabemos que eles não precisam de qualquer motivo para fazer coisas como esta" (Fonte: The Independent, 13/07/2014).

O valor da vida de centenas de palestinos não é mensurada, em comparação a um soldado israelense. Para muitos da sociedade israelense, a morte de mais de duas dezenas de soldados durante a ação terrestre é aceitável "se a missão (de extermínio) for cumprida". Mas as mortes de centenas de civis palestinos não são dignas de comentário. Ainda bem que há pessoas, não necessariamente da esquerda em Israel, que já não suportam carregar a dor da morte dos seus em função da ação militar de Israel. Só querem um basta na guerra.

sábado, 19 de julho de 2014

Palestina e suas crianças.

Fonte: Shehab News Agency (Facebook), 17/07/2014
Em um estado de guerra num centro urbano, os alvos não costumam ser tão claros e nem os atingidos são só os alvos pré-determinados. Seja através de ataques aéreos ou terrestres, os resultados nunca são como os planejados. E quem seriam as maiores vítimas desses ataques? Não há como negar que os alvos mais frágeis são sempre crianças e suas mães, além de pessoas idosas.

Em função da ofensiva de ataques de Israel contra a Faixa de Gaza, até o dia 18 de julho, morreram 264 cidadãos palestinos, dentre estes 49 entre zero e 18 anos de idade. Há casos de ataques de Israel contra o Hospital de Gaza, contra casas com famílias inteiras, além do caso mais simbólico da atrocidade a que o povo palestino tem sido submetido. Quatro crianças brincando numa praia foram sumariamente assassinadas. Motivo? Não ficou muito claro até o momento. Mas fica muito claro o quão disperso são os alvos e desproporcional são os ataques.

http://www.jerusalemonline.com/news/in-israel/local/the-picture-that-shocked-the-internet-6528
Disponível em em: 19/07/2014

Uma família aproveitando um verão de sol na praia, suas crianças brincando de jogar bola. O que esperar mais de um dia assim? Ahed Atef Barkr, 10 anos, Zakariya Ahed Bakr, 10 anos, Mohammad Ramiz Bakr, 11 anos e Ismail Mahmoud Bakr, 9 anos estavam só jogando bola como qualquer criança nessa idade faria, mas eles não eram crianças para a Marinha de Israel, mas alvos a serem atingidos, alvos a serem eliminados, o futuro da sociedade palestina.

Dizem que Israel possui a mais bem treinada força armada do mundo, mas atacar alvos civis, especialmente crianças não demonstra a tão glorificada capacidade de organização. Se não demonstra o despreparo e incapacidade de avaliação de alvos, pode demonstrar a incapacidade de lidar com o "outro", seja ele civil ou militar, pois só animalizando pessoas diferentes de você é que alguém consegue executar uma ação tão desprovida de traços de humanidade.

Se o Estado de Israel e suas forças armadas não conseguem lidar com o dito inimigo, diferenciado seus alvos militares das vítimas civis, talvez seja o momento de não mais se auto-propagar uma democracia. Ou deva se proclamar a Democracia do sangue, aquela que trata todos igualmente, crianças, mulheres, homens, e idosos, sem distinção. Sem diferença ante ao zumbido de míssil destruidor ou de uma rajada que interrompe definitivamente o futebol inocente de quatro crianças palestinas.