quarta-feira, 30 de julho de 2014

Israel e o ódio sem fim contra os palestinos

Jovens de extrema-direita protestando em Jerusalém (Tali Mayer / ActiveStills)

Os defensores do Estado de Israel e de sua política afirmam que esta é a única democracia do Oriente Médio, em oposição às ditas ditaduras islâmicas. Fundada a partir de uma singularidade religiosa e étnica, possui em seu território vários grupos diferentes do grupo majoritário judeu. E essa diferença implica num tratamento diferenciado por parte do Estado a esses "cidadãos de segunda classe". Israelenses árabes, drusos e beduínos tem tratamento diferenciado, sem acesso aos mesmos direitos que so de origem judaica. Até dentro da maioria judaica, há um tratamento diferenciado para os judeus de origem árabe (sefarditas), muitos deles oriundos de países do próprio Oriente Médio, como Iraque.

Se há um tratamento diferenciado em tempos menos atribulados (não falo em "tempos de paz", pois seria incoerente afirmar que isso ocorre em uma sociedade belicosa como a israelense), o que esperar nessa fase de ataque a Faixa de Gaza? Mesmo com forte oposição aos ataques, oriundos de parte da sociedade israelense com apoio da opinião publica internacional, há um forte apoio de parte de sociedade israelense aos ataques do exército de Israel. Esse apoio pode ser percebido nas redes sociais e em manifestações públicas de apoio.

Mas além desse aprovação, há uma manifestação de sentimento inerente à parte da sociedade a partir de uma construção em relação aos árabes e especialmente aos palestinos. Vistos como atrasados, sujos, violentos, corruptos entre outras características negativas, sua exclusão, morte ou expulsão é vista como natural. A existência de tais considerações é fruto de uma construção histórica e que encontra ressonância em camadas da sociedade israelense. Manifestações públicas de ódio, perseguições de palestinos e assassinatos são alguns dos eventos frutos dessa ódio.

Cânticos nazistas zombando da morte de crianças palestinas ("Amanhã não haverá nenhuma escola em Gaza, elas não tem mais nenhuma criança") são entoados como vindos de uma torcida organizada. Mas o que comemoram é somente a morte de crianças. Perseguições públicas de palestinos por multidões de jovens judeus pelas ruas de cidades como Jerusalém, onde Muhammad Abu Khudair, jovem palestino de 16 anos, foi morto após ser queimado vivo. A ação foi estimulada por políticos isrraelenses. As vítimas mais recentes foram Amir Shwiki e Samer Mahfouz, jovens de 20 anos e moradores do bairro de Beit Hannina em Jerusalém Oriental ocupada.

Além dos ataques, o fato da polícia de Israel ignorar crimes raciais torna-os mais perigosos e estimulantes para grupos de extrema direita. Já há campanhas para que se evitem contato de judeus com árabes promovidas em cidades como Jaffa. Grupos como Hemla recebem ajuda estatal para "resgatar" mulheres judias de relacionamentos com árabes. Os ataques suregem até de deputados como o israelense Ayelet Shaked, uma estrela em asceção no partido de extrema direita Jewish Home, que estimula o abate de mães palestinas para impedí-las de darem à luz a "cobrinhas".O ódio é explícito em discurso de políticos e de rabinos como  do ex-rabino chefe do exército de Israel, Avichai Rontzki, que em seus discursos estimulou os soldados antes do massacre do bairro de Shujaiya, na cidade de Gaza, quando os exalta como o "exército de Deus".

Fruto de um preconceito construído para manter judeus e palestinos distantes, manifestado por multidões raivosas pelas ruas de Israel, proferida através de discursos inflamados de políticos ou de rabinos, estimulada pela internet ou por cartazes coladas em paredes de lojas de árabes, ou simplesmente expressa pela indiferença de quem simplesmente observa as bombas sendo jogadas em Gaza, observando tudo do alto de uma colina, o ódio é irmão da indiferença e primo da incapacidade de reflexão de que todos estes sentimentos só servem para construir muros de medo e rios de sangue. Mas no final, todos viram vítimas.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Valor das vidas palestinas




Desde o início da ação israelense em Gaza, incluindo a sua incursão terrestre, o número de mortos do lado palestino passa de 500 (sendo que destes menos de 20% são integrantes dos Hamas). Não há discriminação quanto aos alvos. Mulheres, crianças, idosos e homens são atingidos em qualquer situação e de qualquer forma. De acordo com a UNICEF, o número de crianças mortas passa de 120 até o dia 21 de julho, sendo que uma em cada três crianças mortas tem menos de 12 anos.

Uma família inteira em casa, quatro meninos numa praia jogando futebol, uma ala de hospital em Gaza, homens na rua procurando sua família. Todos são alvos como se fossem alvos móveis ou fixos, dependendo somente da vontade de quem atira ou lança seu míssil. Não importa a situação, mas somente os números a serem atingidos. Os palestinos são tratados como números de uma tabela mortal, na qual são somados suas lágrimas e seu sangue, escondidos da grande imprensa mundial.

Além dos mortos, há um número muito maior de feridos passa de 3.700, entre essas mais de 900 crianças, sem contar os que necessitarão de tratamento psicológico. Segundo o porta-voz da ONU em Genebra, Jens Laerke, não há nenhum lugar seguro para civis em Gaza. Há mais de 100 mil pessoas refugiadas em 69 escolas gerenciadas pela Agência das Nações Unidas aos Palestinos (UNRWA).

O tratamento que Israel dá aos palestinos pode ser percebido em declarações das autoridades, assim como membros da sociedade israelense. Dov Lior, um rabino israelense racista do assentamento de Kiryat Arba, na Cisjordânia, recentemente postou uma decisão permitindo matar civis inocentes, após ser questionado sobre a "guerra" em Gaza: "A Torá de Israel nos guia em todas as esferas da vida, públicas e privadas, sobre como se comportar .(...) Durante a guerra dos povos atacados estão autorizados a punir a população inimiga com qualquer punição digna, como negar suprimentos ou eletricidade e também para bombardear toda a área (...)" Além de defender que é aceitável  "(...) tomar medidas de esmagamento de dissuasão para exterminar o inimigo. No caso de Gaza, ao ministro da Defesa, será permitido para instruir até mesmo a destruição de Gaza".

A justificativa israelense para tantos mortos civis é de que os palestinos são usados como escudo pelo Hamas, mas entre os alvos dos ataques israelenses estão casas com famílias inteiras, hospitais, assim como ocorreu com a Mesquita al-Farouq, que foi deixada de pé apenas um minarete, uma casa para deficientes em em Beit Lahiya, onde morreram dois moradores com deficiência e ferindo outros quatro. Jamilla Alaiwa, assistente social que fundou a casa em 1990, afirma que não havia ligação com paramilitares: "Não estamos envolvidos na política e não há nada lá que justifique esta ação por parte dos israelenses. Todos nós sabemos que eles não precisam de qualquer motivo para fazer coisas como esta" (Fonte: The Independent, 13/07/2014).

O valor da vida de centenas de palestinos não é mensurada, em comparação a um soldado israelense. Para muitos da sociedade israelense, a morte de mais de duas dezenas de soldados durante a ação terrestre é aceitável "se a missão (de extermínio) for cumprida". Mas as mortes de centenas de civis palestinos não são dignas de comentário. Ainda bem que há pessoas, não necessariamente da esquerda em Israel, que já não suportam carregar a dor da morte dos seus em função da ação militar de Israel. Só querem um basta na guerra.

sábado, 19 de julho de 2014

Palestina e suas crianças.

Fonte: Shehab News Agency (Facebook), 17/07/2014
Em um estado de guerra num centro urbano, os alvos não costumam ser tão claros e nem os atingidos são só os alvos pré-determinados. Seja através de ataques aéreos ou terrestres, os resultados nunca são como os planejados. E quem seriam as maiores vítimas desses ataques? Não há como negar que os alvos mais frágeis são sempre crianças e suas mães, além de pessoas idosas.

Em função da ofensiva de ataques de Israel contra a Faixa de Gaza, até o dia 18 de julho, morreram 264 cidadãos palestinos, dentre estes 49 entre zero e 18 anos de idade. Há casos de ataques de Israel contra o Hospital de Gaza, contra casas com famílias inteiras, além do caso mais simbólico da atrocidade a que o povo palestino tem sido submetido. Quatro crianças brincando numa praia foram sumariamente assassinadas. Motivo? Não ficou muito claro até o momento. Mas fica muito claro o quão disperso são os alvos e desproporcional são os ataques.

http://www.jerusalemonline.com/news/in-israel/local/the-picture-that-shocked-the-internet-6528
Disponível em em: 19/07/2014

Uma família aproveitando um verão de sol na praia, suas crianças brincando de jogar bola. O que esperar mais de um dia assim? Ahed Atef Barkr, 10 anos, Zakariya Ahed Bakr, 10 anos, Mohammad Ramiz Bakr, 11 anos e Ismail Mahmoud Bakr, 9 anos estavam só jogando bola como qualquer criança nessa idade faria, mas eles não eram crianças para a Marinha de Israel, mas alvos a serem atingidos, alvos a serem eliminados, o futuro da sociedade palestina.

Dizem que Israel possui a mais bem treinada força armada do mundo, mas atacar alvos civis, especialmente crianças não demonstra a tão glorificada capacidade de organização. Se não demonstra o despreparo e incapacidade de avaliação de alvos, pode demonstrar a incapacidade de lidar com o "outro", seja ele civil ou militar, pois só animalizando pessoas diferentes de você é que alguém consegue executar uma ação tão desprovida de traços de humanidade.

Se o Estado de Israel e suas forças armadas não conseguem lidar com o dito inimigo, diferenciado seus alvos militares das vítimas civis, talvez seja o momento de não mais se auto-propagar uma democracia. Ou deva se proclamar a Democracia do sangue, aquela que trata todos igualmente, crianças, mulheres, homens, e idosos, sem distinção. Sem diferença ante ao zumbido de míssil destruidor ou de uma rajada que interrompe definitivamente o futebol inocente de quatro crianças palestinas.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Rememorando Deir Yassin

Protesto em frente ao Cemitério da antiga vila de Deir Yassin, hoje subúrbio de Jerusalém, e ocupada por um parque


Há sessenta e seis anos uma vila palestina sofria ataque de tropas sionistas, com mais de 100 mortos entre mulheres e crianças, transformando-se no mais emblemático exemplo do massacre sofrido pela população palestina. A notícia do terror provocado pela morte de seus habitantes e propagado pela vilas vizinhas e por toda a Palestina ajudou a provocar uma saída para fora do recém-criado Estado de Israel e a criar o problema dos refugiados palestinos.

Agora, uma simples manifestação convocada pela organização israelense Zochrot, tentou relembrar o ocorrido no mesmo espaço ocupado pela antiga vila palestina. Se não há mais palestinos no mesmo espaço, há ainda alguns resquícios de sua existência, mesmo que ocupadas por hospitais israelenses ou por um parquinho público ou seu cemitério quase totalmente coberto por um parque florestal.

Deir Yassin não foi a única vila massacrada, mas se tornou exemplo do massacre sofrido por palestinos em função da brutalidade e até da neutralidade da própria vila em relação às vilas judaicas próximas, como é evidente em depoimentos. "Antes do massacre, estávamos em bons termos com os judeus em Givat Shaul (vila judaica). Nós compartilhávamos alimentos, comemorávamos juntos (...). Havia paz aqui antes.  Os sionistas vieram e destruiram tudo", afirmou Dina Elmuti, neta de uma sobrevivente.



A manifestação tinha objetivo de chamar a atenção da sociedade israelense para um dos maiores massacres que ajudaram a criar o Estado de Israel e ajudar a não deixar cair no esquecimento tal atrocidade.



Ainda que pequena, a manifestação sofreu oposição de alguns cidadãos israelenses, mas apoio de outros, o que demonstra o quão contraditório pode ser algumas passagens da História recente tanto da população israelense quanto palestina. Atacada em 1948, continua ser atacada nos dias de hoje, seja na negação do massacre, promovida por alguns historiadores sionistas, seja por ataque ao cemitério da antiga vila, promovido por vândalos. Ainda que atacada no seu corpo ou sua memória, Deir Yassin deverá sempre ser lembrada para que casos iguais não ocorram jamais.

terça-feira, 8 de abril de 2014

Nem correr eu posso?

www.bbc.co.uk
Não bastasse o controle sobre a terra palestina imposto pelo exército de Israel, impedindo a livre circulação dos cidadãos palestinos, transformando a Faixa de Gaza no maior campo de concentração do mundo, agora querem impedir até um atleta de competir na única maratona realizada em território palestino.

Nader Al-Masri, atleta palestino de 34 anos, que representou o país nas Olimpíadas de Pequim, agora foi impedido de participar da Maratona da Palestina no próximo dia 11 de abril em Bethlehem (Belém). Vivendo em condições adversas dentro da Faixa de Gaza, com parcos recursos para treino, como falta de pistas e local de treino, além da impossibilidade de receber de fora os tênis dos quais precisa, ele agora não pode nem competir fora de Gaza.

Assim como os tênis que usa nos treinos, que precisam durar mais que o necessário, sua vontade de competir na Maratona da Palestina também tenta durar mais um pouco. "Tenho só mais dois ou três anos antes de me aposentar". O seu problema é que não se encaixa em nenhuma categoria permitida para saída de Gaza pelo exército de Israel.

Seu recorde pessoal na meia-maratona é 1 h 04 min 53 s (Amman - 2006). Não pode ser considerado uma marca de grande expressão internacional, mas demonstra que teria condições de conseguir um tempo estimado na maratona entre 2 horas e 10 min e 2 horas e 14 min, o que poderia garantir não somente o recorde palestino da maratona, mas também o recorde entre atletas palestinos e israelenses, já que o recorde israelense é 2 hs 14 min 21 seg.

Al-Masri apresentou uma petição junto a Suprema Corte de Israel solicitando autorização para competir, que foi negada com a alegação de que não constitui "um caso humanitário...relativo a tratamento médico urgente". Se não pode competir pelo seu país na única maratona palestina, que a imprensa israelense insiste de chamar somente de Maratona de Bethlehem, ao menos resta sobreviver à ocupação israelense, dia após dia, um pé depois do outro, um quilômetro após o outro.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Globo Repórter: Israel paradisíaco e Árabes atrasados é a realidade?

Esta noite, o programa "Globo repórter" mostrou uma visão preconceituosa sobre o Oriente Médio e demonstrou grande desinformação ou informação tendenciosa. Eu considero que o tom demonstrou mais a tentativa de desinformar do que um erro da produção.


Os países árabes foram mostrados como atrasados, áridos, que destruíram seu meio ambiente, enquanto Israel foi mostrado como um grande paraíso ambiental. Em momento algum foi mostrado o que este Estado faz em relação ao controle da água na Cisjordânia ou Israel. Falaram sobre um Rio Jordão quase seco, mas esqueceram de dizer que Israel quer tomar todo o seu vale. Se o rio está tão seco assim, porque Israel quer dominar o vale inteiro? Falaram sobre o deserto de Negev como uma benção construída pelo Estado de Israel a partir de um deserto onde não havia "nada" mas esqueceram de dizer que num deserto há formas de vida adaptadas a falta d'água. Sem contar isso, não citaram as expulsões das populações de beduínos em Negev pelo Estado de Israel.

O programa citou a produção de frutas e hortaliças em estufas em pleno deserto, mas não citou ou explicou que esta produção é feita por palestinos que recebem um salário inferior aos salários pagos aos cidadãos israelenses. A produção destina-se ao mercado europeu, mas o programa não citou que esses produtos sofrem boicote, especialmente na Inglaterra.

Custo a acreditar que tamanha demonstração de desinformação seja fruto somente de um erro de mais um jornalista sofrendo do mal do "ocidentalismo" inerente a alguns diplomatas como Luís Felipe Lampreia, que acredita piamente que os "valores ocidentais" sejam fundamentais para o progresso para o Oriente Médio.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

A bandeira maior de um povo nem sempre fica no mastro


Na tradição palestina, el koffieh tem sido usado tem sido usado como touca pelos homens. O material de algodão é utilizado principalmente para manter a cabeça protegida da poeira pesada e areia, e para os agricultores se protegerem do sol enquanto trabalham em seus campos. O padrão de xadrez faz referência a muitas coisas: uma rede de pesca, um favo de mel, a união das mãos, ou as marcas de sujeira e suor varridos da testa de um trabalhador.

Durante a revolta palestina em 1930, os palestinos usavam o koffieh como um símbolo de nacionalismo e resistência contra o crescente domínio britânico e a colonização sionista na Palestina. Em seguida, foi adotado pelo líder palestino Yasser Arafat já na década de 1960 e continua até hoje a ser um símbolo tradicional de resistência da Palestina.

koffieh preto e branco tem sido costumeiramente referido como a bandeira "não-oficial" da Palestina. Infelizmente, atualmente e, em função da disputa entre os partidos políticos Fatah e Hamas, muitos associaram os uso de koffieh preto e branco com o Fatah e o koffieh vermelho e branco com o Hamas (historicamente, o koffieh vermelho e branco foi associado com o Jabha ou FLP). Esta associação não foi aceita por todos os palestinos, que acreditam ser o el koffieh um símbolo para toda a Palestina. No entanto, em muitos casos, você não pode sair à rua sem vestir um koffieh.

O descuido dos palestinos sobre o uso do koffieh acabou tornando-o um alvo fácil para que fosse usado como acessório da moda (?)  no Japão, Estados Unidos e grande parte da Europa. Muitos, se não todos os portadores deste traje, são completamente ignorantes do verdadeiro significado de um koffieh. Em Israel, seu uso é costumeiramente associado a um terrorista.

Aqueles que acreditam entender o verdadeiro significado de um el koffieh o tem usado como sendo "anti-semita" ou uma "declaração política de apoio ao terrorismo islâmico contra Israel". Mal sabem eles que a "única democracia no Oriente Médio" usa todos os meios de guerra psicológica como uma arma para interromper a história e a cultura de uma população inteira submetida à sua ocupação militar.

Com o tempo, as pessoas passaram a usá-lo sem entender o seu significado, somente compreendendo-o pelo seu uso estético. Os mercados foram inundados por estes acessórios sem sentido, e uma convocação para boicote logo foi iniciada pelos mais conscientes. No entanto, até o dia de hoje, o rosa vulgar ocasional ou o azul "koffieh" pode ser visto sendo usado por palestinos que preferem usá-los para combinar com seus sapatos ou bolsas sem conhecer seu verdadeiro significado. O uso estético, até por palestinos, está certo?

A Fábrica Têxtil Herbawi, localizada em Hebron, é o único produtor original koffieh em toda a Palestina. A fábrica foi fundada em 1961 por Yasser Herbawi. Ele entregou a fábrica a seus filhos e um amigo da família, Abidi Keraki, e promete que ela será sempre de gerência familiar. "É [ el koffieh] nosso passado, nosso futuro...significa tudo", diz ele.

A ironia da situação é que, enquanto a popularidade do koffieh aumenta, as vendas da fábrica diminuíram drasticamente. Devido a importações mais baratas e de qualidade inferior da China, as vendas da fábrica estão caindo pela metade. Após os acordos de Oslo, estas importações foram inundando os mercados desde a década de 1990. Mais de 70% das vendas da Fábrica Têxtil Herbawi são de koffieh preto e branco originais, e os coloridas estão sendo vendidos apenas como um acessório de moda para manter a fábrica em funcionamento.

Infelizmente, Yasser Herbawi não se opõe ao mercantilismo moderno do koffieh. No entanto, ele afirmou que "o koffieh é uma tradição da Palestina e que deve ser feito na Palestina. Devemos ser os que fazem isso".

A fábrica é a "única e a última" a produzir o koffieh na Palestina. A única a produzir ainda o símbolo de resistência da cultura Palestina. Esperemos que o velho fabricante só morra depois de esclarecer aos jovens o verdadeiro sentido do orgulho palestino entorno do pescoço. Ainda que seja usado por muitos somente com sentido estético, nas mais variadas cores, que seu uso seja o símbolo de um povo que luta para continuar existindo. E que este símbolo continue a ser um sinal de desafio aos ocupantes ilegais das terras palestinas, que pensam poder apagar o passado e a existência do povo Palestino.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Jornais brasileiros e o caso "SodaStream-Scarlett Johansson"


É notório que a velocidade em que uma notícia é publicada no exterior difere do noticiário no Brasil, assim como a recíproca é verdadeira. Mudou muito nos últimos anos, principalmente em função da velocidade da internet. Mas temos que admitir que algumas notícias podem ter uma velocidade mais lenta de publicação em função do receio da falta de credibilidade das fontes (ou dados escassos), da menor importância da notícia ou da complexidade do tema.

Ainda que admitindo todas essas variáveis, a notícia sobre o acordo comercial da atriz Scarlett Johansson com a empresa israelense SodaStream demorou uma semana para ter ressonância na grande imprensa brasileira. Somente na quinta-feira e sexta-feira, as empresas do grupo Folha e Globo deram a devida importância ao imbróglio no qual a atriz se meteu. Dos telejornais, somente o "Jornal da Globo" de quinta-feira é que noticiou, talvez por ter como âncora William Waack, com mestrado em Relações Internacionais e por ter sido correspondente no Oriente Médio.

Nos jornais, revistas e internet, todos os grandes grupos de mídia no Brasil deram importância inicial somente ao acordo comercial e valores do comercial no intervalo do SuperBowl LVVIII. Nenhum canal de comunicação deu importância aos desdobramentos do acordo comercial de uma celebridade (ainda que eu discorde do termo) com uma empresa israelense que tem sua unidade fabril em assentamento ilegal em território palestino.

Somente nos dois últimos dias os canais de mídia deram a ressonância ao noticiário internacional sobre o caso. Tanto o boicote sobre as empresas israelenses como a SodaStream, assim como as críticas recebidas  pela empresa e a atriz por Ongs humanitárias como a OXFAM só surgiram agora no noticiário.

O rompimento da relação que existia entre a OXFAM e a atriz, que era sua embaixadora, pode parecer de menor importância, assim como o envolvimento comercial de uma atriz famosa com uma empresa que sofre boicote.

Mas o que na verdade há é uma menor capacidade de crítica e de análise da mídia nacional frente ao noticiário internacional e seus desdobramentos. Quando a imprensa internacional tece comentários e análises rapidamente sobre notícias no Brasil, a imprensa nacional parece sentir-se traída. O que a imprensa nacional queria é que a imprensa internacional fosse tão reticente e lenta em suas análises quanto ela. Ainda bem que temos a internet para nos livrar dessa morosidade.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

O que vale mais? Um contrato publicitário ou uma causa humanitária?

http://electronicintifada.net/

Após ser criticada por ter assumido a função de embaixadora da marca de máquinas de produção de refrigerante caseiro SodaStream, que tem sua fábrica em assentamento ilegal na Cisjordânia ocupada por Israel desde 1967, a atriz Scarlett Johanson decidiu abandonar a função de embaixadora da ONG OXFAM, que busca combater a pobreza e a injustiça através de campanhas.

Para a atriz, talvez isso seja melhor ou mais cômodo do que se inteirar sobre os desdobramentos de seu envolvimento com uma empresa que se aproveita da miséria dos palestinos e da ocupação ilegal de território palestino pelo Estado de Israel.

Ou será que para ela um contrato publicitário é mais importante que uma causa humanitária? Ou uma causa humanitária só é importante enquanto não atinge nenhum interesse comercial de um ator? Ou o envolvimento com uma causa humanitária só é importante para imagem e não para a causa em si?

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

O verde apagar da História.


Biria Forest. Photo: Avi Hirshfield, KKL-JNF Jerusalem.

Quando vemos uma floresta pensamos nas vantagens de se manter um espaço assim. São locais apropriados para passeios, práticas de atividades esportivas, visitas guiadas, além de servirem para a preservação da flora e fauna original da região e dos mananciais, apesar de algumas nem mais terem  unicamente espécies da fauna local, como acontece com a Floresta da Tijuca na cidade do Rio de Janeiro. 

Em Israel há muitos parques nacionais, todos criados após a independência e mantidos por uma entidade -JNF (Jewish National Fund), que administra os parques e o plantio de regiões do país com espécies que não são originárias da região. Pode parecer de menor impacto este plantio, mas a implantação de parques e o plantio de árvores segue um critério e um objetivo claro de ocupação do espaço das antigas vilas e cidades palestinas desocupadas durante a guerra árabe-israelense de 1948-49.

Criada em 1901, a JNF, com objetivo de aquisição de terras durante o final do Império Otomano, foi mais do que uma instituição de caridade e se tornou a "guardiã da terra pra o povo judeu" e a dministradora das terras não-urbanas em Israel. Serviu par a criação de um território estritamente judaico através da plantação de coníferas e outras espécies não originárias da região. Ajudou a criar a idéia de que os judeus levaram recuperaram a "terra seca" da Palestina, criando vastos bosques e parques. Com o plantio de mais de dois milhões e quatrocentas árvores, a JNF não tem somente o objetivo ecológico, mas de ajudar a apagar a presença árabe na Palestina.

O objetivo da JNF era criar um país verde, judeu e europeu, diferentes das características da paisagem local. Para isso foram usadas espécies originárias da Europa e América do Norte, reforçando a idéia de uma palestina árida e vazia antes da chegada dos colonos judeus.

Além de plantar árvores, criando um cinturão verde entorno das antigas vilas palestinas, a JNF proíbe a visita de palestinos aos locais das antigas vilas. Esta ocultação da presença palestina é mostrada no filme "Facing the forest" (2001), do diretor judeu-alemão Peter Lilienthal, baseado no livro do autor israelense Abraham B. Yeoshua, que fala do trabalho de um rapaz israelense, Noach, que exerce a função de guarda florestal num parque, e que passa a conviver com um senhor palestino, Abdul Karim, e sua filha, Nahida.

O ponto de virada da história se dá quando ocorre um incêndio do qual Karim é acusado pelas autoridades de ter provocado, enquanto Noach é demitido. Mas o incêndio revela a existência de uma vila encoberta pelas árvores. Além da discussão acerca do projeto judeu-sionista de expulsão da população palestina das vilas, o diretor discute o projeto de recriação de um ambiente totalmente novo por parte das autoridades israelenses, distanciando-a de uma Palestina com presença árabe.

A presença palestina pode ser contestada pela historiografia "oficial" israelense, ou tentarem apagar através do plantio de árvores e criação de parques, mas não deixa de suscitar trabalhos a seu respeito tanto por representantes da nova  historiografia israelense quanto da literatura e do cinema.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

A incapacidade de crítica da imprensa brasileira.

http://revistaquem.globo.com/
Apesar da atriz Scarlet Johansson estar no centro do furacão por ter se tornado embaixadora global da marca SodaStream, que sofre críticas pois sua unidade fabril está situada em um assentamento israelense ilegal na Cisjordânia, a imprensa brasileira parece desconhecer o assunto ou simplesmente não acompanha o noticiário internacional acerca das críticas sofridas pela atriz e seu contratante.

Será que os belos olhos da atriz são suficientes para a imprensa ignorar a discussão sobre a responsabilidade de seus atos? Será que a imprensa considera que um contrato publicitário é mais importante que a repercussão do caso? A revista "Quem" prefere comentar somente a aparição da atriz no comercial que será vinculado no intervalo do Super Bowl no próximo domingo. Mas outros veículos de imprensa preferem ignorar ou comentam superficialmente sobre o imbróglio atriz-anunciante. Ainda que jornais como "New York Times" estejam dando cobertura sobre a situação, os veículos brasileiros preferem ignorar.

Talvez a imprensa brasileira esteja inebriada pela beleza da atriz ou demonstrando a total falta de capacidade de crítica e pesquisa sobre assuntos que fujam do quintal do noticiário Rio-São Paulo-Brasília. Ou esteja faltando coragem para tecer críticas mais duras que somente ao seu cabelo ou a alguma atuação nos filmes de Woody Allen.

Até onde pode ir a desinformação?


Nas última semanas foi noticiada a parceria da empresa israelense SodaStream com a atriz Scarlett Johansson, tornado-a embaixadora mundial da marca, além do anúncio de uma grande peça publicitária no maior evento dos esportes americanos, o Super Bowl. 

Se fosse mais uma simples empresa não haveria problema algum ela ter se tornado garota-propaganda, mas o grande problema está na localização da produção da empresa e a visão limitada da atriz a este respeito. Com sua unidade instalada num assentamento israelense ilegal na Cisjordânia ocupada por Israel desde 1967, a empresa ajuda a fomentar o colonialismo israelense e a não autonomia do povo palestino na sua busca por um país independente e livre de tropas israelenses.

Para a atriz não passa de mais uma forma de ficar mais rica, sem se preocupar com a origem do produto que anuncia. Ao ser alvo de críticas por estar associando sua imagem a uma empresa que ocupa território palestino de forma ilegal, a atriz simplesmente se defendeu elogiando a empresa, que ela diz estar criando "pontes" entre israelenses e palestinos, mas o que na verdade a SodaStream cria é a segregação e a exclusão, pois ajuda a negar acesso à  terra pelos palestinos, oferece sub-empregos a palestinos (empregos esses que nem os cidadãos israelenses querem) e assim consegue ter recursos para pagar uma notável "embaixadora" da marca no mundo. 

Após isso, a ONG OXFAM, que atua em mais de 100 países e trabalha para reduzir a pobreza e injustiça, e que Johansson tem representado desde 2007, criticou a atriz por representar uma empresa que contraria a política da ONG. Não satisfeita com a infeliz nota sobre "pontes", a atriz ainda tentou se defender alegando que "nunca quis ser o rosto de nenhum movimento social ou político", o que contraria sua participação como "embaixadora" da ONG.

Será que vale tudo para ter um gordo contrato publicitário com uma empresa? Nem falo na necessidade de maior consciência, mas algumas pessoas parecem não entender o peso de suas ações e, principalmente, de sua imagem. Será que vale a pena usar sua imagem sem pensar no reflexo de suas ações na vida das outras pessoas? Deve ser muito bom dormir somente tendo que se preocupar com a sua imagem no espelho.

domingo, 26 de janeiro de 2014

Por que "Notícias da Palestina"?

Na imprensa brasileira, o interesse pela notícia varia muito em função de alguns aspectos, fazendo com que temas percam espaço na cobertura muito rapidamente pela repetição do assunto, por terem se tornado muito complexo para páginas principais ou simplesmente por se tornarem secundários em algumas coberturas, sejam nacionais ou internacionais. Um dos assuntos que costumam ganhar destaque, mas depois some novamente, é o noticiário sobre o Oriente Médio. Normalmente ganham destaque quando há algum atentado terrorista, alguma descoberta arqueológica ou simplesmente por tratar de algum desdobramento político. Dificilmente as notícias passam disso na imprensa brasileira.

Como Historiador, sempre me senti motivado a pesquisar o Oriente Médio, especialmente a Questão Palestina. Como sempre tive dificuldade para conseguir informações, livros, dados e notícias mais específicas sobre a Palestina decidi criar esta página para divulgar e comentar notícias, blogs, trabalhos acadêmicos e livros sobre a Palestina.

Espero poder expressar minha opinião da forma mais correta possível com imparcialidade, mas sem esquecer a crítica mais responsável possível. Se há algo que gostaria de poder sempre falar é sobre a Palestina e os Palestinos, que são tão pouco comentados, discriminados como os muçulmanos e até esquecidos, seja pela imprensa, historiadores ou por pesquisadores das mais diversas áreas.

Não pretendo somente falar dos Palestinos como a historiografia atual no Brasil expõe, vitimizando-os ou tratando-os somente como refugiados ou esquecidos pela História, mas quero mostrá-los como partes ativas de sua própria História e de sua condição política e econômica.

Antes de ser somente um canal de informação e discussão, pretendo ser lugar aglutinador sobre a História que não quer se apagar.